terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Um velho problema: avaliação em Educação Física






Muitos professores de Educação Física têm em suas mãos uma enorme dificuldade: criar um sistema de avaliação único. Mas acontece que essa disciplina é completamente diferente das demais, em que é possível mensurar o conhecimento do aluno por meio de avaliações teóricas (a famosa prova). Na Educação Física, o conhecimento é construído pela apropriação de técnicas corporais e pela criação de movimentos, o que dificulta muito a avaliação por parte do professor.

Algumas décadas atrás, predominava, na Educação Física, um modelo tecnicista no qual a avaliação era feita de acordo com critérios de rendimento, principalmente o esportivo. Como crítica a esse modelo, dizia-se que os alunos que já tinham uma disposição para a prática esportiva eram muito bem conceituados, mesmo participando pouco da aula ou quando não se interessavam por ela. Além disso, os estudantes com mais dificuldades para executar os movimentos técnicos dos esportes, por mais esforçados que fossem, tinham sempre um baixo desempenho avaliativo. Esse argumento incontestável serviu para que o critério "rendimento técnico" fosse abandonado; e a avaliação, repensada.


Depois do modelo tecnicista, nunca houve um consenso quanto à avaliação. Alguns professores exigem trabalhos teóricos em que são cobrados, na maioria dos casos, progressões pedagógicas, sistemas técnico-táticos e, principalmente, a história das modalidades esportivas. Mas esse tipo de avaliação é falho porque, com a série de recursos disponíveis na Internet, os alunos podem facilmente produzir um trabalho sem sequer ler o conteúdo que foi solicitado. Além disso, esse método leva ao mesmo erro do modelo tecnicista: centrar as aulas de Educação Física — que têm um amplo repertório de atividades ao seu dispor — em um único conteúdo: os esportes.

Outros professores simplesmente se apropriaram do modelo usado pelas demais disciplinas e aplicam uma prova ao término do bimestre. Esse padrão também não é o mais adequado em virtude da desvinculação entre teoria e prática. No caso da Educação Física, nenhuma prática pode ser destituída de uma teoria explicativa, pois, caso contrário, a aula simplesmente se transforma em um recreio prolongado. Por mais lúdica que seja a prática de Educação Física, ela sempre deve ter seus objetivos, mesmo que sejam imperceptíveis aos alunos e a quem observa a aula. E, se a prática não pode ser desvinculada de uma teoria, tampouco a teoria pode ser destituída da prática. Portanto, as provas, de maneira alguma, cumprem a função de verificar se um conteúdo prático (ligado ao movimento) foi assimilado pelo educando.

Outra forma de avaliação bastante comum e que também vem sendo questionada é aquela que usa como critério único o comparecimento do estudante e sua participação nas aulas. O problema é que, ao aluno, é permitido faltar até a 25% das aulas e, dessa forma, esse tipo de avaliação fere uma lei do MEC. Além disso, o professor pode facilmente se confundir, considerando o aluno extrovertido como participativo e o estudante tímido como menos esforçado.

Alguns teóricos da área sugerem alternativas inovadoras, como extinguir a avaliação formal (realizada pelo professor), trocando-a por uma auto-avaliação. No entanto, os profissionais que atuam nas escolas afirmam que essa idéia é utópica, já que o aluno está habituado ao sistema de avaliação prova/trabalho, não tendo, portanto, maturidade suficiente para fazer uma auto-análise coerente. Outros estudiosos concebem como modelo ideal medir o desenvolvimento geral do estudante. Nesse sistema, o potencial motor do aluno seria medido no início do ano letivo e, bimestralmente, avaliado novamente. Entretanto, além de ter critérios bastante subjetivos, o elevado número de educandos e o pequeno número de aulas semanais inviabilizam que o professor consiga acompanhar a evolução dos seus alunos individualmente.

Mas, então, qual é o modelo ideal para se fazer a avaliação em Educação Física? Infelizmente, não existe uma fórmula pronta. Muitos dos modelos citados — e criticados — anteriormente podem ser usados, contanto que não como padrão único e tampouco sem passar por uma reflexão prévia. Por exemplo: os trabalhos escolares são úteis, mas não aqueles que permitem que o aluno simplesmente "recorte e cole" da Internet, e, sim, os que podem reforçar a articulação entre teoria e prática, levando o estudante a refletir sobre seu cotidiano nas aulas de Educação Física e a forma como concebe o próprio corpo. Em vez de solicitar um trabalho enorme tratando do histórico da modalidade, das séries de progressões pedagógicas e das regras dos esportes — que muitas vezes sequer é lido na íntegra pelo professor —, sugere-se que sejam cobrados textos curtos (na forma de redação), mas com um alto teor de crítica e reflexão, explorando as problemáticas surgidas durante as aulas ou mesmo no dia-a-dia do aluno (como, por exemplo, o uso de anabolizantes). As avaliações teóricas podem seguir a mesma linha: por meio de questões dissertativas, pode-se exigir que o estudante reflita sobre a importância do movimento na sua vida. E, se muitas vezes é inviável acompanhar o desenvolvimento individual dos alunos, pode-se acompanhar o desenvolvimento geral, ou seja, da turma, até mesmo reforçando o senso de colaboração, já que uma parcela da nota será coletiva.

De qualquer forma, o mais importante é não negligenciar a importância da avaliação, pois é através dela que o educando tem um controle do seu desenvolvimento e, assim, sabe quanto ainda pode evoluir com relação aos movimentos e ao domínio e consciência do corpo — quebrando os paradigmas de beleza pregados pela mídia e que envolvem, muitas vezes, sofrimento e privações.



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