terça-feira, 23 de outubro de 2012

Prática de ensino em Educação Física Escolar I: relatos de uma intervenção pedagógica





Introdução
    O curso de Educação Física, assim, como outros cursos relacionados à educação, apresenta em seu currículo disciplinas que têm o caráter de vivência orientada dentro de algum âmbito de atuação. Com a finalidade de aproximar o acadêmico, gradual e sistematicamente, do local em que atuará como profissional, onde os erros devem ser mínimos, já que estaram lidando diretamente com a formação de cidadãos.
    Umas dessas disciplinas, talvez a que mais se aproxime do campo de atuação profissional durante o período de formação acadêmica, é a prática de ensino. Nela o aluno se depara com a situação real que se encontra a educação, desde estrutura da instituição e seu funcionamento, até as pessoas que se beneficiam da educação na escola, os alunos, sendo para eles todo e qualquer objetivo em todas as aulas de qualquer disciplina oferecida.
    A educação física, assim como qualquer outra disciplina, deve pensar os seus alunos com suas particularidades, pois, muitas vezes, na ânsia de ensinar, acaba deixando de lado algumas características importantes no aprendizado, como a troca de experiências e o contexto ao qual os alunos estão inseridos.
    Para muitos alunos, a educação física é a disciplina onde existe maior proximidade com o professor. Acaba havendo a formação de um vínculo, uma manifestação, por parte dos alunos de seus anseios, diferentemente do que ocorre nas outras disciplinas. Nós, professores de educação física, temos em mãos um papel de extrema importância dentro da escola, principalmente durante o ensino fundamental, porém, em muitas situações esquecemo-nos disso, transformando as aulas numa espécie de terapia com a função de retirar o estresse dos alunos. Não que isso não tenha sua importância, mas é muito pouco a ser oferecido por uma aula de educação física.

Metodologia e materiais
    Esse estudo se caracteriza como um relato de experiência de uma intervenção pedagógica baseada em alguns elementos de uma pesquisa ação.
    A Pesquisa-Ação pode ser definida como "um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual, os pesquisadores e participantes representativos da situação ou do problema, estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo (THIOLLENT, 1996: 14). Não consideramos uma pesquisa-ação, pois tivemos pouco tempo de intervenção e não buscamos saber se houveram transformações positivas ao grupo.
    A presente pesquisa consiste em uma analise qualitativa dos dados. A coleta de dados foi feita através de observações.
    O tipo de observação feita é caracterizada como participante, em equipe, na vida real e assistemática. Uma observação é considerada participante quando há uma participação real do pesquisador com o grupo. Em equipe, pois cada membro pode relatar a ocorrência de vários ângulos, tornando-a mais rica. A observação na vida real se caracteriza assim, por ter o registro dos dados a medida que eles forem acontecendo no ambiente em que se observa o fato. Já a observação assistemática se caracteriza pelo fato de não haver uma estrutura na técnica de observação, ou seja, não se estabelece previamente o que se deseja observar (LAKATOS & MARCONI, 1991: 192-195).
    Trazemos para a escola a proposta de trabalhar com a pedagogia interacionista-construtivista, baseada nas leituras dos textos de João Batista Freire, a qual considera o conhecimento que a criança já possui e alerta o professor sobre a participação dos alunos na solução dos problemas, explorando as diversas possibilidades educativas de atividades lúdicas espontâneas, propondo tarefas cada vez mais complexas e desafiadoras com vistas à construção do conhecimento. E para tanto utilizamos como metodologia aulas expositivo-teóricas dialogadas, com a utilização de vídeos e fotos, prática de jogos e brincadeiras em pequenos e grandes grupos.
População e amostra
  • Deste estudo fizeram parte os estudantes de uma escola da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis, Santa Catarina.
  • A amostra contou com 23 alunos da segunda série do ensino fundamental do período matutino, do ano de 2007.
  • A Instituição é uma escola da rede municipal de ensino de Florianópolis, situada no bairro da Costeira do Pirajubaé. Os estudantes também são moradores da mesma localidade.
O relato da experiência
A Disciplina Prática de ensino em Educação Física Escolar
    A prática de ensino é uma disciplina obrigatória do curso de educação física, sendo também conhecida em alguns locais como estágio supervisionado. No curso de educação física da Universidade Federal de Santa Catarina, existem duas disciplinas obrigatórias, as quais são orientadas e devem ser supervisionadas pelos professores da disciplina.
    A disciplina foi dividida em três momentos:
1.     Discussão e planejamento pré-intervenção: Nas aulas iniciais são tratados os temas referentes à disciplina para dar artifícios aos acadêmicos, para levantarem questionamentos e discuti-los o que faz com que acabem refletindo sobre qual a melhor forma de intervenção prática e de que forma executá-la durante o período em que atuarão dentro da escola.
    Durante essa fase, visitas foram feitas à instituição onde seria feita a intervenção. Durante essas visitas foi feita uma análise da conjuntura educacional, a qual visa aproximar o aluno/estagiário à instituição através de observações orientadas que tratam de aspectos da estrutura física, aspectos sociais local, e a visão da educação física na escola, com o professor, com o diretor, com os alunos, e o que a escola almeja na função de educar através do plano político-pedagógico - PPP (PINTO, 2003).
    Buscando mais consistência as reflexões necessárias para o planejamento, e ter uma aproximação gradual com o grupo que sofreria a intervenção, iniciou-se uma etapa de observações das aulas de educação física da turma. Foram quatro aulas, onde se buscaram informações sobre os alunos, seus pontos positivos e negativos.
    Lentamente fomos nos tornando conhecidos e aceitos pelo grupo o que ajudaria no momento da intervenção.
2.     No segundo momento, onde a essência de toda a disciplina se concentra, começou o período de intervenção. Foram programadas 14 aulas no total, distribuídas em dois meses, duas aulas por semana, acontecendo nas segundas e sextas-feiras, cada aula com seus objetivos, já estipulados no primeiro momento da disciplina.
    Nossa primeira aula foi ministrada em dupla, para que tivéssemos mais segurança perante a turma. Foram feitas atividades voltadas para a expressão corporal, e às vezes interronpendo a fala dos alunos, para que eles tentassem se comunicar através de gestos, mostrando um pouco como seria a principal maneira de comunicação dos surdos. Para finalizar, foi feito um futebol em duplas, o que ressaltou a necessidade de estimular as crianças em atividades coletivas e cooperativas, e que busquem um maior nível de atenção, onde o individualismo a dispersão nas atividades pudessem ser abolidos.
    A segunda aula começou a ser ministrada por apenas um aluno/estagiário e o outro observava e relatava. Neste dia aconteceu a primeira modificação nos planos de aula, pois, apesar de haver uma quadra coberta disponível, a chuva molhou a quadra pelas laterais, e julgando ser pouco seguro para os alunos, optou-se fazer atividades em sala de aula. Neste recinto, desenvolvemos uma atividade simples, porém interessante para estimular a atenção do grupo, sendo o jogo chamado batata-quente o instrumento utilizado. Neste jogo, um aluno deveria sair da sala, e três modificações eram feitas (alunos trocavam de lugar, objetos com caixa de giz e apagador eram colocados em outro local, um desenho no quadro seria feito, etc.) e quando o aluno retornasse a sala ele deveria indicar a modificações ocorridas. Também se deu ênfase à expressão corporal sem a utilização da voz para indicar ao aluno se estava próximo ou não dos objetos modificados, assim ajudando a manter certa ordem dentro de sala, pois ao lado outra turma estava envolvida em suas atividades matemáticas.
    A terceira aula foi no auditório. Lá fizemos uma aula abordando os esportes adaptados através de vídeos. Muitas das modalidades demonstradas pouco aparecem na mídia, assim propiciamos a muitos alunos o primeiro contato com o que é diferente para a maioria das pessoas.
    Na quarta aula propomos uma atividade lúdica de voleibol, onde voltamos a explorar a necessidade de trabalhar coletivamente, sendo que aos olhos de quem assistia de fora não parecia uma aula bem sucedida, porém, naquele momento as crianças notaram que jogando individualmente elas não conseguiriam realizar a tarefa solicitada. Mesmo sabendo disso, elas preferiam colocar a culpa em alguém pelo insucesso do grupo no desenvolvimento no voleibol de lençol. No final da aula houve uma discussão sobre a aula, e todos indicaram como erro a falta de espírito coletivo e de atenção.
    Já na quinta aula, deixamos um pouco de lado as atividades que visavam à coletividade para que não houvesse frustração entre os alunos, e talvez até entre nós. Foram desenvolvidas atividades lúdicas relacionadas ao handebol. O grupo foi dividido em duas equipes, e fizemos ali uma atividade que visava ser vencedora à equipe que derrubasse mais pinos que estavam em cima da linha central da quadra. Para jogar as bolas, os alunos deveriam estar em setores determinados previamente. As dificuldades em geral se deram pelo fato de ter que respeitar as regras estipuladas.
    Na sexta aula, passamos por uma experiência muito comum nos colégios, mas que até então não havíamos vivenciado, a junção de duas turmas. As turmas se relacionaram bem, apesar de neste dia ter havido situações desagradáveis em que três alunos da classe foram retirados da aula devido a mau comportamento, e para que os alunos da outra turma não resolvessem seguir o exemplo, tivemos que ser mais duros. A aula continuou normalmente e os alunos retirados da aula foram sujeitos a uma conversa conjunta com o professor da turma sobre seu comportamento.
    Na sétima aula, mesmo sem saber que seria a última da intervenção na escola, nós fizemos uma aula na sala, e recapitulamos a aula de vídeo sobre esportes adaptados, sendo que cada aluno iria desenhar algo sobre as modalidades adaptadas e depois explicariam seu desenho para a turma. Todos fizeram os desenhos, sendo poucos os alunos que estavam sem idéias e tiveram que ser relembrados por nós. Esse foi um momento onde podemos levar o mundo dos esportes adaptados aos jovens alunos, e crendo que assim, eles terão desde cedo um pouco de respeito diante das diferenças. Claro que ações como essas devem ser feitas com certa freqüência, sendo trabalhadas sempre buscando as opiniões dos pequeninos.
    Infelizmente, nós tivemos uma surpresa desagradável depois desta aula, pois, instituiu-se uma greve dos servidores municipais, e com adesão do professor de educação física desta turma neste movimento, nós não poderíamos fazer nossas intervenções, devido à obrigatoriedade da presença do mesmo às aulas. Iniciou então, um período de espera pelo término do movimento. A greve durou mais tempo que o esperado e não houve mais a possibilidade de retomar as aulas de intervenção. Diante disso partimos para a elaboração do trabalho final e apresentação do mesmo, declarando por encerradas as intervenções na instituição.
    Com o fato da greve, conseguimos desenvolver apenas sete aulas das quatorze previstas inicialmente.
    Durante as intervenções, o professor orientador da disciplina de pratica de ensino I acompanhou em alguns momentos, dando suas opiniões, apontando os pontos positivos e negativos.
3.     No terceiro momento, momento pós-intervenção, os alunos retornaram a sala de aula para compartilhar as experiências com os seus colegas de graduação, discutindo e refletindo a cerca das situações vividas no período de intervenção escolar.
Conclusão
    A partir desta experiência dentro da escola, foi possível aprender um pouco mais sobre o que é, como se constrói, e como ministrar aulas de educação física na realidade. Foi interessante perceber que durante as observações obtivemos uma percepção dos alunos e quando estávamos na situação da intervenção a impressão é completamente diferente. Além disso, a disciplina de prática de ensino propicia o conhecimento mais profundo da estrutura e do funcionamento de uma instituição de ensino, bem como mostra a importância de se investigar a realidade social na qual a escola se insere para permitir a adequação das aulas ao contexto dos alunos. Contudo, essa vivência modificou o olhar dos estagiários sobre o ambiente escolar e seus personagens, ampliou os conhecimentos sobre ensino/aprendizagem e instigou a reflexão sobre os rumos que as aulas de educação física devem tomar para desenvolver as potencialidades de seus alunos da melhor maneira possível.

Referências bibliográficas
  • LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos de metodologia científica. 3. edição. São Paulo: Atlas, 1991.
  • PINTO, Fábio Machado. Análise da conjuntura educacional. Florianópolis: MEN/CED/UFSC. 2003.
  • THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. 7ª edição. São Paulo: Cortez, 1996.
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