sábado, 2 de fevereiro de 2008

Uma visão sobre a Educação Física Escolar






Ao pensar em Educação Física na escola, a maioria das pessoas lembra-se de alguma modalidade esportiva, como futebol, basquete, handebol, vôlei etc. Porém, a disciplina tem vários outros objetivos na área da Educação. Hoje, na faculdade, existe essa separação, distinguindo a Licenciatura em Educação Física, para quem irá dar aulas em escolas; e Bacharelado, voltado àqueles que pretendem trabalhar com esportes.

Para a professora de Educação Física Vania Maria Cavallari, especialista em recreação e lazer, psicomotricidade e jogos cooperativos, uma das intenções na Educação Física Escolar é mostrar como a criança pode chegar a ser um atleta, mas isso não quer dizer que seja o único objetivo da disciplina, pois, como está inserida no contexto educacional, deve ter seu olhar voltado para a educação global do aluno.

"A Educação Física é uma atividade ampla, onde se trabalha, desde pequeno, o movimento, aumentando o repertório motor, porque o movimento é aprendido, é cognição, a criança não nasce andando, ela aprende a andar, é preciso usar o raciocínio, a inteligência", conta Vania.

Na Educação Infantil, por exemplo, dever-se-ia dar um enfoque maior à brincadeira, porque o lúdico está muito presente na realidade da criança. Os profissionais ainda têm certa dificuldade em trabalhar dessa forma até mesmo por causa dos pais, que pensam que uma escola que brinca não está ensinando. "Os pais acham que isso não é sério por causa da própria conotação da palavra 'brincadeira', dada pela nossa cultura. Mas brincar é muito sério. Com a brincadeira, o professor conquista a criança, porque é exatamente aquilo que ela gosta de fazer, e, desta forma, o aluno volta para a escola com prazer. Você só faz alguma coisa satisfatoriamente se tiver prazer", conta a professora.

Se bem orientado na Educação Física, o aluno obtém conhecimento do próprio corpo, que é o seu melhor equipamento, e adquire condição de trabalhar consigo próprio, em equilíbrio, tornando-se um adulto produtivo.

A Educação Física, como parte do contexto da instituição de ensino, não precisa, obrigatoriamente, ser ministrada apenas na quadras. Pode e deve ser trabalhada de maneira interdisciplinar, integrando os conteúdos que são tratados na sala de aula. Se os professores mantêm um diálogo, informando-se mutuamente sobre o conteúdo que está sendo trabalhado nas diversas disciplinas, existe a possibilidade deste trabalho interdisciplinar acontecer. Um desenho na aula de Arte, por exemplo, tem uma conotação, mas o mesmo desenho para a Educação Física traz outras possibilidades, porque se pode avaliar a coordenação fina, observada no trabalho da mão.

Na área de modalidades esportivas, a escola é o local onde se detectam as habilidades da criança. Não é um lugar de treinamento, mas sim, de orientação. Quando são detectadas as habilidades, o professor encaminha o aluno para treinamento em um local especializado, com todo o suporte necessário para o desenvolvimento daquele atleta. Essa seria a maneira ideal, pois o aluno iria trabalhar todas as suas habilidades na escola e, depois, saberia qual é a que mais gosta.

"O professor de Educação Física tem competência para descobrir isso. Mesmo se a escola não oferece aulas de judô, por exemplo, pelo porte físico, pela estrutura do aluno, o professor pode perceber", diz Vania. "Se o aluno se destaca em determinada modalidade, vamos encaminhar para um treinamento profissional. E não o contrário, o menino começou a andar e o pai já coloca numa escolinha de futebol, onde ele não sabe nem amarrar o tênis".

Segundo Vania, o professor de Educação Física deve orientar na alimentação, informar que a pessoa precisa comer de maneira correta para gozar de uma boa qualidade de vida, mostrar que o aluno precisa praticar hábitos saudáveis e ter higiene. Porém, muitas vezes, isso não acontece, e a prática esportiva acaba ficando mais relacionada à estética do que à saúde, e esse conceito está deturpado. Se o professor orientasse o educando na Educação Básica de tal forma que ele tivesse o esclarecimento sobre todas essas questões do organismo, ele iria perceber que se adquire um corpo saudável sem tanta "malhação", um termo utilizado de maneira equivocada, já que traz implícito o significado de machucar, um contra-senso para a Educação Física.

Outro ponto que deve ser observado pelos professores da disciplina é o conceito de competição, pois o esporte precisa se desvincular dessa conotação. Os campeonatos interescolas e torneios esportivos, às vezes, acabam exigindo muito dos alunos, que têm a competição e a rivalidade exacerbadas. Cobrar dos alunos um desempenho de alto nível requer uma série de providências: o trabalho precisa ser acompanhado por bons profissionais, contar com boas estruturas e deve-se manter uma equipe completa, com médico, fisioterapeuta e psicólogo diuturnamente. "Muitas escolas não oferecem isso. Ou seja, exigem do aluno como se ele fosse um atleta, mas na hora de oferecer-lhe uma estrutura adequada, essas escolas não têm", adverte a professora.

Vania acredita que a instituição de ensino deve oferecer uma educação voltada para a realidade do cotidiano dos alunos. Dessa forma, a Educação Física Escolar poderia dar maior importância na implantação de jogos cooperativos, pois o mercado de trabalho segue a mesma tendência, estimulando a solidariedade, o espírito de grupo, a cooperação. "Muitas empresas de grande porte fazem a seleção de seus funcionários por intermédio dessa alternativa, que não é ensinada em muitas escolas. Perceba como a escola não compartilha da realidade do mercado de trabalho", adverte.

Na grade curricular, a Educação Física visa à formação de indivíduos que tenham consciência do próprio corpo e desenvolvam-se de maneira integral e saudável, e alguns órgãos se mobilizam para reiterar esse compromisso. "O MEC cobra que seja praticada nas instituições de ensino uma Educação Física Escolar, especificamente. Os parâmetros curriculares têm essa abordagem, e quando se fala na Educação Infantil, também se tem os referenciais que mencionam a ludicidade. Em nenhum lugar se fala do esporte competitivo, e educação não é isso. A escola precisa orientar o aluno e levá-lo a pensar, para que tenha noção do que irá querer ser amanhã. Isso se chama educar, e quando você educa, está transformando comportamento", finaliza Vania.


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